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A incoerência da vida


Eu posso até lidar bem com esses conceitos filosóficos, com esses materiais abstratos e com todos esses livros aqui na estante de casa. Eu lido bem com esses casais desconhecidos que passam de mãos dadas por mim todos os dias. Eu entendo bem essa coisa toda de ser alguém que não se é, ou de mentir, omitir e aceitar aquelas coisas banais da vida. Eu posso até lidar com educação, festas, dinheiro e inveja só não me venha com discussões sobre o passado das pessoas que passaram. Eu não entendo nada de matemática, mas sei lidar bem com os papéis escritos dispostos aqui na mesa. Sou um tipo de presente distante e futuro proposto, sei bem gritar e a não dar importância a quase nada na vida. Frágil como um bichinho eu sei bem lidar com a perda, mas sei brigar até o fim pela vitória, porque o gosto de vencer é doce demais pra não se sentir. Eu posso até lidar com a insegurança de ter gostos duvidosos, estudos mal feitos e oportunidades perdidas, mas não lido com gente que não sabe o que quer porque qualquer lugar vai servir pra isso. Eu entendo bem de lágrima, sorriso, ida, volta, eu domino a arte dos contrários, só não domino os opostos na lei atrativa das relações. Eu posso lidar com todas essas incoerências da tua fala, só não posso corrigir os erros grotescos do teu caminho. Eu consigo lidar bem com os conhecidos amigos de sempre, com os problemas mundiais e com a política financeira do meu bolso. Mas não sei se estou sabendo lidar com o paradigma da mulher bem resolvida. Muitas paixões chamadas sapatos e bolsas, muito trabalho, educação e inteligência, poucas afetividades e nada da minha mãe. Não sei bem ainda lidar com o rumo que as não escolhas da gente toma,  ou com os dias fora de casa. Não me ensinaram a lidar com esses amores de verão, outono, inverno e primavera e nem com a satisfação de se viver sozinha. Eu posso até lidar com as fotos, meu cabelo curto ou as viagens de férias, mas não me venha pedir pra lidar com essas frases de efeito sobre amor e sentimento. Eu lido bem com definições, mas de verdade não sei bem lidar com as sutis diferenças entre as mãos dadas e desfeitas, entre homens e mulheres, entre ser e talvez não ser.


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