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Mostrando postagens de setembro, 2012

Poema para o Fim do Mês

Um dia, menos dia. O mês vai se indo e bem-vindo seja mais um, dois pra chegar o fim do ano. Eu tentei parar o tempo só pra ter mais a graça do desejo de estar viva. O horário vai mudar, nossas vidas se esvaziam no vazio da folha do calendário e se enchem no ponteiro do relógio. O que haveria, estar por vir, que as lágrimas sejam menos salgadas, que os amargos sejam doces, que a falta seja ausente. Leia um livro, compre flores,dance a sua música, dê abraços mais apertados, aprecie a estação, pare para o vento passar. Faça tanto quanto os 31 dias próximos que temos, os únicos de toda a eternidade de vida que desejamos.

A doce música cessou, as luzes se apagaram como o piscar dos meus olhos salgados de tantas lágrimas. Eu não me coloquei diante dos medos para fugir, não corri riscos pra me perder assim. Não fiz planos para você rabisca-los, a disposição da minha fala, remete ao teu não falar que ensurdece a minha mais nobre poesia. Vejamos, meu bem, dá valor ao que vale. Sua existência é breve e seus dias leves como o vento que me fez te ver de outras formas, disformes e reformulando a minha concepção mundana de desejar o que há do outro. O que há de errado aqui? O que te fez, não fará mais, não olhe pra trás, pegue suas poucas coisas e segue o teu caminho, que não cruzou com o meu, há anos passados. Repasse a limpo suas frases, dirija-se a mim como se não conhecesse a essência do que há por dentro, o intrínseco, intimo do desvelar. Não pretendo revelar teus segredos, não há o que contar, quando nunca se soube. Há sombras demais cobrindo sua terna face, e eu nunca poderia te observar, como você me vi...

Poema da Primavera

Você sorri, eu engulo o choro, sem água, com soluços, sem demora. Na tentativa vã de disfarçar um medo eu abraço o mundo, volto pra casa, quero colo. A carência da não auto-suficiência de um eu perdido. Desejo tudo, ando depressa, não meço o passo, corro o risco mas, sinto muito. O universo conspira a meu favor, a simétrica arte de escrever foi dada, a inabalável coluna construída mas, foi ao chão. Um incrível dom de expressão, fala, motivos e desajeito. Desembaralhando as cartas do baralho eu sou feliz mas, há pessoas lá fora. Houve um tempo que era mais fácil, mas deixou de ser. Sufoco um grito, apago os grifos, como se não tivesse ido mas, já há marcas. Ouço passos apressados, vozes agudas, tons altos mas, me sento. Há coisas desconhecidas, caminhos cruzados,muito futuro mas, pouco presente. Garganta seca, sinto sede de mar, tristeza de criança mas, dia se foi. Não está bem, esvazio o copo, encho as mãos mas, continuo profunda. O inverso do desafeto, o inverno está indo mas, ansios...

Fim

Somos enfim chuva, tocando corpos,ruas e terras. Somos enfim, sol nascendo e se pondo todos os pequenos dias do mês. Somos enfim, sós como as lembranças que deixei guardadas em caixas. Somos enfim, nós entrelaçados nas linhas da vida. Somos enfim, afeto nas intrínsecas relações do tempo. Somos enfim, saudade com a distância do que não volta. Somos enfim, infinito com aquilo que perdura por instantes na nossa conversa. Somos enfim, tudo do nada que temos. Somos enfim, definição, daquilo que temos dos outros. Somos enfim, poesia da música em prosa. Somos enfim, um esboço do desenho jamais reescrito.

Enfim, assim

Não se supra do lugar que você não ocupa. Vamos esquecer da rotatividade da terra em seu movimento quase perfeito de aproximação dos corpos. Esqueça os caminhos, que por direito ocuparam sem avisar. O verão ainda não se atreve a despontar, o sol vem, vindo forte e a chuva tímida, cálida, calamos nossa voz pra vê-la cair, na doce viagem dos nossos sentidos misturados, vivos, enfim, assim. Espere calmamente a adaptação da nova estação que se achega no ar, nossos esforços estão pesados, e nossos braços cansados. Mas o que há de vir, advém do muito, tudo ou quase nada. Nada contra a correnteza, desliza entre os artifícios, corrói o que separa o teu desejo do meu.  Assim, enfim novamente, tão bem, meu eu, sem o teu acostuma-se, desacostumado a nova falta que os móveis desarrumados pela minha dança causam. Cause seu tempo, na temporalidade rápida que lhe afeta como afeto, afago digno de mãos entreabertas, prontas para a imensidão de espaços vazios que há na ínfima parte do teu lugar, as...

O Eu de Você

Construa seus planos em mim,sem pressa, com a calma que eu lhe desejo estar por perto, desperto. Sinta minha mão  que se entrelaça a sua, assim como se entrelaçam os corpos nos dias frios do ano. Encante - se de tudo o que há no vento, movendo os instantes eternos do meu relógio. Encontre- se nos teus sentidos, o frio na barriga, o calor da face, as borboletas que saem do estômago e sobrevoam a minha cabeça. Siga os conselhos dos livros, reescreva as nossas tristezas em alegrias,façamos poesia de prosa, desajeito do jeito de viver. Durma ao lado de quem te quer bem, quanto o possível de mim. Que seja como o infinito se o que há aqui durar, até a próxima vida se quer que ela exista. Invente o seu estado de alegria e desvende o meu de loucura, o meu querer vem da sua totalidade, não seja singular, venha ao plural do meu eu, ser enfim, uma parte do mundo. 

O Jogo de Sono

Hoje eu acordei antes que você, ainda é estranho essa divisão de lugares, talheres e facas.Andei pela casa, desfiz umas malas, fiz o café. Ainda não me acostumei com essa perdição, no tempo, no vácuo, de ter uma casa pra voltar quando eu me vou. Nos tempos passados eu ria de tudo, dizia que não, que nunca, desatava os nós, queimava os papéis, limpava os móveis, o chão e o passado. Desmontava as peças, as partes, jogava as roupas, repassava a tese, apagava as frases. Minha mãe tinha medo por mim, eu tinha medo por todos, o mundo é lindo demais, eu dizia, pensava e ria alto, mais alto e forte. Infinitas loucuras, blasfêmias perderam-se no ar seco dos tempos sem chuva. Me roubaram tantas vezes, e devolveram os mais, com demais de outras vidas. Mas, agora eu me senti ir, por que eu quis, mas não queria, paradoxalmente a síntese do medo se fez. Eu acordei antes que você, observei o seu sono, ainda é estranho a divisão de mim, pro outro, assim como se já não houvesse um, dois ou dez. Não so...