Hoje eu acordei antes que você, ainda é estranho essa divisão de lugares, talheres e facas.Andei pela casa, desfiz umas malas, fiz o café. Ainda não me acostumei com essa perdição, no tempo, no vácuo, de ter uma casa pra voltar quando eu me vou. Nos tempos passados eu ria de tudo, dizia que não, que nunca, desatava os nós, queimava os papéis, limpava os móveis, o chão e o passado. Desmontava as peças, as partes, jogava as roupas, repassava a tese, apagava as frases. Minha mãe tinha medo por mim, eu tinha medo por todos, o mundo é lindo demais, eu dizia, pensava e ria alto, mais alto e forte. Infinitas loucuras, blasfêmias perderam-se no ar seco dos tempos sem chuva. Me roubaram tantas vezes, e devolveram os mais, com demais de outras vidas. Mas, agora eu me senti ir, por que eu quis, mas não queria, paradoxalmente a síntese do medo se fez. Eu acordei antes que você, observei o seu sono, ainda é estranho a divisão de mim, pro outro, assim como se já não houvesse um, dois ou dez. Não solte da minha mão, eu pensei tantas vezes, mas as mãos sentem calor, e precisam estar soltas, envoltas no vento que sopra pouco lá fora. Eu estava cansada, não queria afetar sua rotina, seu dia ou os seus planos.Queria só descansar de tantos roubos e tombos. Um ombro, um colo,um desejo de medo de me perder de mim pra você. Eu acordei antes que você, e ainda é estranho o sono que eu sinto do sonho do jogo de nós.
receita: no primeiro dia, chore, no segundo dia, limpe a casa, recolha suas roupas. no terceiro dia, escute sua música predileta e, dance. na semana seguinte escreva uns versinhos infames e chame-os de desilusão. vai soar bonito, eu aposto e juro que nesses dias todos até o dedinho do seu pé vai doer, porque sentir sempre dói sentir é justamente a percepção da matéria estranha a nós já dizia por aí alguma filosofia, e nos outros dias que sobram só, continue porque daqui 30 dias vem um carnaval
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