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O Jogo de Sono

Hoje eu acordei antes que você, ainda é estranho essa divisão de lugares, talheres e facas.Andei pela casa, desfiz umas malas, fiz o café. Ainda não me acostumei com essa perdição, no tempo, no vácuo, de ter uma casa pra voltar quando eu me vou. Nos tempos passados eu ria de tudo, dizia que não, que nunca, desatava os nós, queimava os papéis, limpava os móveis, o chão e o passado. Desmontava as peças, as partes, jogava as roupas, repassava a tese, apagava as frases. Minha mãe tinha medo por mim, eu tinha medo por todos, o mundo é lindo demais, eu dizia, pensava e ria alto, mais alto e forte. Infinitas loucuras, blasfêmias perderam-se no ar seco dos tempos sem chuva. Me roubaram tantas vezes, e devolveram os mais, com demais de outras vidas. Mas, agora eu me senti ir, por que eu quis, mas não queria, paradoxalmente a síntese do medo se fez. Eu acordei antes que você, observei o seu sono, ainda é estranho a divisão de mim, pro outro, assim como se já não houvesse um, dois ou dez. Não solte da minha mão, eu pensei tantas vezes, mas as mãos sentem calor, e precisam estar soltas, envoltas no vento que sopra pouco lá fora. Eu estava cansada, não queria afetar sua rotina, seu dia ou os seus planos.Queria só descansar de tantos roubos e tombos. Um ombro, um colo,um desejo de medo de me perder de mim pra você. Eu acordei antes que você, e ainda é estranho o sono que eu sinto do sonho do jogo de nós.

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