Eu estava tentando escrever um poema bonito, que falasse de gente bonita, de coisa alegre; mas ai de repente cai uma lágrima , salgada e fria; eu lembrei então, por que a gente chora? Porque a mãe negou o doce, porque o remédio é ruim, porque o mundo ensina e você se machuca, porque o amor não existe, porque o príncipe é sapo, porque a vida é curta, porque a vida é dura, porque dura tanto? Minha mãe sempre dizia: Menina, para de chorar pelo leite derramado; mas quem deixou essa porcaria de leite derramar e sujar o meu chão? É um filme bonito, é um livro comprido, é o personagem querido, é a poesia bem feita, é a música perfeita, é o aeroporto e o avião, é o mar e Recife, são os estados no meio, sou eu aqui e ele lá. Mas me diz por que chorar? Porque eu me perdi , porque isso aqui não é meu, porque a ferida abriu, porque a luz apagou e a festa disseram ai que acabou, acabou de começar; pra você, não é? Mas, eu não quero dançar, não com você, vai embora, eu vou dançar sozinha, eu vou dançar com outro, com quem eu quiser. Mas eu eu te digo, pra que chorar? Se a menina dança, se o sol aparece , se a viagem tá paga, se a borracha apaga, se nada é meu, se você vai passar, passarinho, se eu vou embora, se o mundo é grande, limpa o chão, bota de novo outro leite no fogo.
receita: no primeiro dia, chore, no segundo dia, limpe a casa, recolha suas roupas. no terceiro dia, escute sua música predileta e, dance. na semana seguinte escreva uns versinhos infames e chame-os de desilusão. vai soar bonito, eu aposto e juro que nesses dias todos até o dedinho do seu pé vai doer, porque sentir sempre dói sentir é justamente a percepção da matéria estranha a nós já dizia por aí alguma filosofia, e nos outros dias que sobram só, continue porque daqui 30 dias vem um carnaval
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